
Por Leonardo Carvalho
“O rock não me é estranho e não é de agora”.
A frase é de Vladimir Carvalho, diretor do documentário Rock Brasília – Era de Ouro; serve perfeitamente como resposta a quem vê aquele senhor grisalho, com cara de professor, e se pergunta como foi que ele resolveu fazer um documentário sobre o rock na capital do país nos anos 80.

Saiba você, que Vladimir é veterano do cinema documental. Tem no currículo documentários politizados como Companheiros Velhos de Guerra e Barra 68 – Sem Perder a Ternura e, em todos eles segundo ele mesmo, “eu uso pelo menos um rock”.
Sua história em Brasília começa em 1970, quando foi convidado pela UnB a criar um departamento de cinema na universidade. Em seus cursos, pedia aos alunos que exercitassem a capacidade de roteirizar usando cenas cotidianas vistas na cidade (os detalhes são explicados por ele mesmo, no vídeo no fim deste post). Surgiu a ideia de pedir a eles que documentassem, ainda no início dos anos 80, histórias sobre as bandas e festas de rock que começavam a acontecer por lá.
Foi em 1988 que ele resolveu partir de onde os alunos tinham parado por impossibilidades técnicas; assumiu a tarefa de contar a história das bandas que saíram de Brasília para tomar o Brasil de assalto.
Sim, o documentário levou mais de 20 anos para ficar pronto. E a idade não fez mal algum para a história ou para a produção. Aliás, o tempo deixa o resultado até mais interessante já que a edição aproveita depoimentos, entrevistas e cenas gravadas por Vladimir desde 1988.
O longa começa com depoimentos de familiares de Fê e Flávio Lemos - da Capital Inicial -, e de Renato Russo, além de Philippe Seabra, integrante da Plebe Rude. É montado de modo contextualizar a história do surgimento dessas bandas, vinculando-o à vida em Brasília na época e à situação política e cultural brasileira durante o fim da ditadura e início da Nova República.
Momentos históricos (para bem e para mal) são muito bem explorados. Vladimir não foge de tocar (em profundidade) em temas polêmicos como o desastroso show da Legião Urbana no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, em 1988 – que terminou com centenas de feridos. Também estão lá, em detalhes, as reações de amigos e família ante à notícia da doença que tiraria a vida de Renato Russo. E, claro, existem os momentos descontraídos – vários são protagonizados por Seabra, que tinha só 15 anos quando começou a viajar com as bandas e mesmo com essa idade participou de um antológico show na cidade de Patos de Minas, MG.
A história ainda conta com depoimentos de outros integrantes e ex-integrantes de bandas do rock de Brasília como Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá – da Legião – Dinho Ouro Preto – da Capital Inicial – e Bi Ribeiro e João Barone – do Paralamas do Sucesso.
Mais do que documento sobre a cena roqueira dos anos 80, Rock Brasília é uma lição de história e de como a música, ao contrário do que acontece nesses nossos tempos apáticos, pode ser tanto a catalisadora quanto a provocadora de mudanças sociais profundas.
No vídeo abaixo, o diretor Vladmir Carvalho fala um pouco sobre o trabalho. E confira nossa página de vídeos onde publicamos alguns trechos do debate onde estiveram presentes as famílias de Renato Russo, Fê e Flávio Lemos e o Plebe Rude, Philippe Seabra.









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