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Lúcia Murat resgata história familiar nos anos 60 em documentário

 

 

Por Leonardo Carvalho

 

 

Durante a coletiva de imprensa do seu novo documentário, Uma Longa Viagem, a diretor Lucia Murat afirmou que seus filmes são “um exercício de exposição das minhas dúvidas e das minhas ansiedades”. Talvez essa seja a melhor descrição de seu último filme, que trata da relação entre ela e seus dois irmãos e entre os três e o restante da família, durante as décadas de 60 e 70, período em que Lúcia, inclusive, foi presa política do regime militar.

Personalista, o longa não perde tempo com introduções que contextualizariam os personagens e a época; parte de uma breve apresentação para a exposição de textos enviados pelo irmão ainda vivo (o outro faleceu recentemente) através de cartas a ela e à mãe durante suas muitas viagens ao redor do mundo. O processo causa certo estranhamento inicial; é como chegar à casa de alguém que não se conhece levado por um amigo, que nos apresenta rapidamente os anfitriões e nos deixa sozinhos à nossa própria sorte.

O irmão missivista, Hector, era o que nos anos 60 e 70 se chamava de “desbundado” – o sujeito meio amalucado que resolvia botar o pé na estrada atrás de “uma vida despojada e despreocupada”. Hector rodou o mundo duas vezes, sempre levado por circunstâncias aleatórias, e vivendo à base de alucinógenos. Suas cartas à mãe e à irmã Lúcia, no entanto, ocultavam o desbunde e mostravam apenas o seu lado sonhador, revelando-se alguém em busca de um objetivo maior na vida.

Para narrar as histórias contadas nas cartas, Lúcia usa de estratégias pouco comuns no documentário brasileiro. Em primeiro lugar ela escalou o ator Caio Blat para interpretar as cartas, encarnando o irmão escritor. Ela justifica a escolha narrativa: “não acredito em uma divisão rígida entre documentário e ficção”.

A cada carta lida e interpretada pelo ator, Lúcia convida o próprio irmão para comentar o período em que a carta foi escrita. Temos aqui um contraponto entre o “irmão certinho” das cartas e o “irmão maluco” da vida real.

Completou o formato com um recurso usado durante a interpretação de Blat em que cenas da época das cartas eram projetadas ao fundo. O ator interagia com as imagens, criando uma sensação de que ele estava efetivamente caminhando na Londres dos anos 60 ou meditando na Índia dos anos 70.

O estranhamento inicial é aliviado aos poucos especialmente pelos depoimentos de Hector, uma figura extremamente carismática e dona de um fino senso de humor.

Levado pelo fio-condutor das cartas de Hector, o público passeia pelas duas décadas, revive os anos de chumbo e como as pessoas reagiram a eles (engajando-se politicamente como no caso de Lúcia, ou despirocando como no caso de Hector), e revive as profundas transformações sociais e familiares que ocorreram no país e no mundo durante aqueles anos difíceis.

 

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